Um pouco sobre o Dia do Quadrinho Nacional

ESTANTE DESARRUMADAHQSuper Zoom

Data busca lembrar as raízes da produção nacional, muitas vezes independente e feita com muito esforço, mas também, muito carinho

A ideia desse texto é exaltar a mídia quadrinhos. Como quem acompanha o site já sabe, somos muito entusiastas dessa mídia e inclusive vários quadrinistas nacionais já colaboraram com a gente.

A data 30 de janeiro foi idealizada pela Associação dos Quadrinistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP) em 1984, por se referir a data em que foi publicada a primeira história em quadrinhos no Brasil, “As Aventuras de Nhô-Quim”, de Ângelo Agostini. De lá para cá, muita coisa mudou.

Vieram muitas coisas legais como os gibis da turma da Mônica, a revista Chiclete com Banana, o Menino Maluquinho dentre tantos outros. Mas infelizmente a produção nacional ainda fica muito a margem de tudo que é oferecido aos leitores. O poderio dos super heróis ainda é dominante, por mais que tenhamos grandes artistas, reconhecidos internacionalmente, produzindo coisas excepcionais se tornou cultural o próprio brasileiro não saber o que é produzido por seus próprios artistas.

Uma passada pelos meus contatos no Whatsapp perguntando para alguns amigos o que eles sabiam da produção de quadrinho nacional. A resposta foi unânime: nada! Muitos sequer conhecem o selo Graphic MSP, que dá nova vida aos personagens de Maurício de Sousa pelas mãos talentosas de outros artistas.

Isso me faz pensar: é um erro na comunicação? Continuamos falando apenas com o nicho de leitores? Um exemplo claro do descaso foi o do prêmio Jabuti, maior celebração da literatura nacional, com 60 anos de história, só criou uma categoria para as histórias em quadrinhos em 2017.

Isso tem que mudar. O Super Zoom tenta incentivar essa mudança apresentando diversos outros materiais de quadrinistas nacionais. O canal no YouTube, Pipoca e Nanquim, referência em quadrinhos,se tornou uma editora e este ano de 2019 passará a publicar também, quadrinhos nacionais, além de eventos que fomentam o meio como o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), já conhecido da galera do meio, a Comic Con Experience (CCXP), que na sua última edição em 2018, contou com uma ala dos artistas com mais de 500 quadrinistas nacionais e internacionais e alguns outros.

É preciso celebrar o quadrinho nacional com urgência. Pensando nisso, resolvemos perguntar para alguns quadrinistas o que significa ser um quadrinista nacional. Então, é melhor eu parar de digitar, a estrela desse texto não sou eu e sim eles. Abaixo, você confere esses depoimentos. Vida longa e próspera ao quadrinho nacional.

Laerte Coutinho: “O que me vem à cabeça é que esse conceito se refere a uma experiência ao longo de 46 anos… Provavelmente ser quadrinista – nacional ou alienígena – já significou um monte de coisas diferentes.

Por exemplo, quando fomos em comitê a Angoulême – em 1985, acho -, tinha uma energia meio estatal resultante da gestão do Ziraldo na Funarte, e lembro do modo meio “plano plongée” com que a gente era vista. Usavam muito a expressão “quadrinho de resistência”.

Acho que nós, do Brasil, tínhamos um modo parecido de olhar para os quadrinistas da África – como expressão ainda a se desenvolver, como algo primitivo, até encantador por esse mesmo motivo.

Lembro também dos anos em que a Chiclete com Banana estourou, ultrapassando a tiragem da revista MAD no Brasil, e nós, como participantes da experiência da Circo Editorial, do Toninho Mendes, tomamos conhecimento de uma força que não sabíamos ter. Lembro de coisas assim.

Acho que quadrinista nacional também significa um modo pouco ortodoxo de fazer e distribuir quadrinhos, um modo anárquico e caseiro de lidar com licenciamentos, marcas, franquias, essas profissionalidades americanas de alto impacto. Nesse sentido, significa um apego ao artesanato, também”.Laerte Coutinho é chargista e idealizadora da revista Chiclete com Banana (ao lado de Angeli), contribuiu com a revista Piratas do Tietê e, ao lado do filho Rafael Coutinho, idealizou a revista Baiacu entre outros.

Angeli à esquerda e Laerte à direita. Créditos: Folha de S. Paulo

Guilherme Profeta: “Vindo originalmente do Jornalismo, eu mesmo venho me fazendo essa pergunta em etapas. Em primeiro lugar, o que significa ser um quadrinista? E, depois, o que significa ser um quadrinista brasileiro, produzindo no Brasil para o Brasil? Quadrinistas (e sob o termo “quadrinista” eu estou incluindo tanto os roteiristas, como eu, quanto os ilustradores) são contadores de histórias — tais quais os jornalistas. As especificidades da narrativa visual em painéis não torna a atividade tão diferente assim de outras que se baseiam, da mesma forma, em narrativas, como o cinema, a literatura tradicional e o próprio jornalismo. Há, inclusive, uma importância social na representação em forma de quadrinhos, e é precisamente aí que chegamos à segunda parte da pergunta: o que significa ser um quadrinista nacional? O que eu vou acrescentar em seguida não é de forma nenhuma uma obrigação — já que eu não poderia jamais defender que a criatividade de qualquer colega seja tolhida —, mas uma sugestão baseada em minhas próprias experimentações: as boas histórias não acontecem somente em Nova Iorque ou em Tóquio. Ser um quadrinista nacional é compreender que as inspirações podem vir de fora, de todos os lados (tais quais os imigrantes que compõem o povo brasileiro), mas a essência pode ser nossa, em forma de lendas, de cenários, de referências… Nós, como quadrinistas, podemos (e devemos) representar a nossa visão do que é o próprio Brasil. E, como leitores, precisamos fazer questão de consumir esse material, que existe e está por aí, não necessariamente ou somente nas prateleiras das livrarias, mas também naqueles ambientes especializados em conteúdo independente e experimenta”.Guilherme Profeta é professor do curso de jornalismo da Universidade de Sorocaba (Uniso) e autor da HQ Melissa em Ellipsia ao lado da ilustradora Lígia Zanella e da coletânea Ellipsia além de Melissa.

Ligia Zanella à esquerda e Guilherme Profeta à direita no lançamento de Melissa em Ellipsia. Créditos: jornal Cruzeiro do Sul

Wagner Willian: “Significa tentar e continuar tentando expor ideias, fatos, sensações em histórias ou cenas até mesmo não narrativas quando tudo ao seu redor afunda-se na lama. As paredes de sua casa ainda estão de pé. A água está fervendo. Dentro dela a menor garantia de monetização pelo seu trabalho e mesmo assim você se percebe rascunhando a página de um novo quadrinho. Passa o café procurando se justificar de que não é um meio tão insano assim, de que nem tudo é um imenso desastre. Esmiúça ao redor. Não há garantia. Apenas a vida em colapso. A xícara está cheia e, te esperando, um livro que precisa ser feito. Irá fazê-lo sem saber exatamente o porquê. O que virá depois disso depois não importa. Depois de tantos escombros sociais, será história. Algumas entre quadros. Seu café é forte e sem açúcar e já se acostumou com isso”. Wagner Willian é quadrinista, autor de Bulldogma, O Maestro, o Cuco e a Lenda, O Martírio de Joana Darkside, Lobisomem sem Barba entre outros.

Denis Mello: “Significa saber que vai lidar com um cenário muito desafiador onde você vai ter que lutar com unhas e dentes para conseguir trabalhar com o que você tanto gosta de fazer. Creio eu que todos que estão nessa são realmente apaixonados não só por HQ em si, mas por PRODUZIR histórias. Muitos dizem, e eu concordo, que não temos um mercado, temos uma cena. Uma cena já meio inflada, pois nos últimos anos surgiram centenas de novos artistas muito talentosos e cheios de potencial, mas com um crescimento de publico que não acompanhou na mesma proporção.

Assim sendo, trabalhar com quadrinho nacional de certa forma também é a busca pela vanguarda, pois nenhuma estratégia é 100% segura, não existe um caminho das pedras, você tem que se dedicar, se arriscar, buscar estratégias que te coloquem um passo a frente da média da cena. Provavelmente ter que trabalhar com outras mil coisas para se sustentar e ainda tentar manter o equilíbrio emocional no meio disso tudo, dormindo pouco pra gerar seu produto mesmo quando nada parece que vai dar certo. É como abrir mão de ter um emprego e vida “normais” para empreender num negócio seu, sendo que você já sabe que esse negócio dificilmente vai render qualquer estabilidade. Mas mesmo assim, existe uma satisfação muito grande envolvida no terminar cada página, no fechar de um projeto, em cheirar o livro fresquinho, e principalmente, em receber um feedback positivo e ver o brilho no olhar do seu público, mesmo que você esteja cometendo um suicídio lento para manter a produção em andamento”. – Denis Mello é quadrinista, autor de Beladona e Teocrasília Trabalha como ilustrador e oficineiro em paralelo a seus projetos principais, além de já ter lecionado Artes na rede municipal de Niterói, sua terra natal.

Denis Mello na CCXP. Créditos: Catraca Livre

Felipe Parucci: “Imagina um mundo pós apocalíptico cheio de zumbis. Você é um dos poucos sobreviventes, faz de tudo pra se proteger, constrói suas próprias armas com vassouras velhas, facas, e ferramentas domésticas, se abriga num bunker improvisado, tudo pra sobreviver a esse caos, mas no fundo se perguntando qual é o propósito de sobreviver num mundo sem chances de sobrevivência?
Ser um quadrinista nacional é um pouco como isso. Você optou por fazer arte, criar suas próprias histórias, transmitir suas ideias num país onde a cultura está moribunda, os leitores são como zumbis atrás de entretenimento padronizado e industrializado. Mas pra mim, fazer o que eu amo, fazer quadrinhos, é um pouco como sobreviver”. – Felipe Parucci é quadrinista, autor das obras Apocalipse, por favor, Já Era, Auto Ajuda e Enxaqueca. 

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